Cultura

Quadrilha Amor Nordestino leva arte e identidade aos arraiais de Cruz das Almas

Fernanda Amordivino

Entre passos sincronizados, figurinos coloridos e encenações, a Quadrilha Junina Amor Nordestino tem conquistado espaço no cenário cultural de Cruz das Almas. Fundado em 2019 por Robson Ferreira e Albino Santana, o grupo alia tradição e criatividade para levar ao público apresentações que vão além da dança.

Ao longo dos anos, a quadrilha passou a investir cada vez mais na construção de espetáculos temáticos, ampliando sua atuação no movimento junino local.

“Tivemos uma grande evolução artística. A cada ano, buscamos nos reinventar. Hoje, a nossa quadrilha carrega mais experiência, responsabilidade e o desejo constante de dar um passo além a cada temporada”, destaca o presidente do grupo Robson Ferreira.

Ao centro, os coordenadores da Quadrilha Amor Nordestino, Robson Ferreira e Albino Santana, ao lado de integrantes do grupo durante evento de lançamento do São João de Cruz – Foto: Reprodução/Instagram (@quadrilhaamornordestino

Nesse sentido, ele afirma que o papel da quadrilha é manter viva a essência cultural do São João na cidade. 

“Nosso grupo representa a dedicação de nossos brincantes, que também são artistas, e que levam cultura, emoção e mostram ao público que o São João vai muito além da festa: ele é tradição, pertencimento e orgulho para todos nós cruzalmenses”.

A temática de 2026 homenageia Dandara dos Palmares e reforça a quadrilha junina como espaço de preservação da memória – Foto: Arquivo do grupo

A força da juventude na Amor Nordestino

Atualmente, o grupo reúne 36 brincantes e cerca de 10 integrantes na equipe de produção. Formado majoritariamente por jovens, os componentes enxergam a quadrilha como um espaço de valorização da arte e fortalecimento da identidade nordestina.

“Representar o Nordeste através da dança é muito importante, porque valorizamos esse meio artístico. Além disso, também mostramos que a juventude está ativa nesse espaço, e isso é incrível”, afirma Verônica Batista, de 18 anos, que faz parte da Amor Nordestino desde 2025.

Para Verônica, a ligação com a dança surgiu ainda no período escolar. Essa paixão foi determinante para sua entrada na Quadrilha Amor Nordestino. 

“Quando concluí o ensino médio, recebi o convite diretamente de Albino, o vice-presidente. Foi uma oportunidade que eu agarrei com todo o meu esforço, porque o amor pela arte e pelo São João me motiva”, destaca.

Para Verônica Batista, integrar a Amor Nordestino representa a oportunidade de viver um sonho – Foto: Maria Antônia Fotógrafa

Já Gabriela Jesus, de 19 anos, ressalta que a quadrilha também contribui para divulgar a cultura nordestina e apresentar ao público uma visão mais ampla da região.

“Muitas pessoas que não conhecem o Nordeste têm uma visão cheia de estereótipos e pensam que aqui é só seca. Então é gratificante representá-lo de uma forma maravilhosa. Através da nossa dança, mostramos que temos identidade”, pontua.

Para além da representação cultural, Gabriela afirma que a Amor Nordestino também se tornou um espaço de acolhimento e apoio emocional, ajudando-a a enfrentar períodos de luto.

“Quando eu perdi minha tia e minha avó, que eram tudo pra mim, foi muito difícil. Depois de um mês, voltei a dançar porque sentia que somente a dança poderia me ajudar a enfrentar aquela tristeza. A quadrilha mudou a minha vida. Eu nunca me imaginei em uma e agora não me vejo sem”, relata.

Gabriela afirma que a Amor Nordestino a ajudou a acreditar mais em si mesma e a superar inseguranças por meio da dança – Foto: Arquivo do grupo

A realidade por trás dos palcos

Apesar do crescimento artístico, manter a Amor Nordestino ativa durante todo o ano ainda é um desafio. Segundo Robson Ferreira, a falta de incentivo financeiro continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados pelo grupo.

“Existe toda uma estrutura nos bastidores, como ensaios, transporte e alimentação. Por isso, eu acredito que deveria existir um projeto de lei que garantisse bolsas de incentivo para quem dedica tempo, talento e esforço para manter viva essa importante manifestação cultural”, propõe.

Ele destaca ainda que, na cidade, já existem alguns meios de incentivo à cultura. No entanto, ainda são insuficientes. 

“Temos recursos da Lei Aldir Blanc e também editais e apoios municipais, mas eles não suprem todas as necessidades. Manter uma junina ativa exige um investimento muito alto. Então, ainda é necessário ampliar as formas de valorização da nossa cultura”, pontua.

Mais que uma quadrilha, uma família

Embora haja desafios a serem enfrentados, os integrantes afirmam que o sentimento de pertencimento e a emoção vivida durante as apresentações do grupo fazem todo o esforço valer a pena.

Para Verônica Batista, subir ao palco após meses de preparação é uma experiência singular.

“Estamos ensaiando há cinco meses para viver este período junino. Durante as apresentações, é incrível saber que as pessoas estão ali para prestigiar tudo o que foi preparado com tanto esforço. E quando elas chegam para nos abraçar e parabenizar, a emoção é ainda maior”, relata.

O diretor musical e coreógrafo, Paulo Gabriel, também destaca a relação afetiva construída com a Amor Nordestino.

“Falar sobre quadrilha junina é um ponto muito sensível pra mim. Às vezes, estamos preparando um figurino ou organizando algum detalhe e, de repente, vem aquele sentimento de gratidão. Eu sou grato pela oportunidade de viver tudo isso ao lado de tantas pessoas que acreditam nesse projeto”, afirma.

Amor Nordestino busca representar a identidade cultural de Cruz das Almas através da arte e da dança – Foto: Arquivo do grupo

Segundo o presidente Robson Ferreira, o maior orgulho é perceber que uma ideia nascida em uma conversa entre dois amigos apaixonados pela dança se transformou em um grupo que mantém viva a tradição junina em Cruz das Almas.

“É muito especial quando vejo tantas pessoas acreditando e construindo esse sonho junto conosco. Porque a Amor Nordestino é muito mais que uma quadrilha; é uma família construída com dedicação, respeito e amor”, conclui.

Leia também: Triângulo Dourado fortalece a tradição do forró em Cruz das Almas

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Fonte: Bahia Recôncavo

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