Finalista da Copa, Argentina tem incentivo à imigração europeia em sua Constituição e foi de país indígena para maioria branca


Fãs argentinos comemoram vitória sobre o Egito na Copa nas ruas de Buenos Aires
Luis Robayo/AFP
A campanha da seleção da Argentina na Copa do Mundo extrapolou os gramados e fomentou debates nas redes sociais que foram além do futebol e reacendeu debates sobre racismo e sobre a própria formação da sociedade argentina, com forte influência europeia.
Mas o que pouca gente sabe é que a Argentina tem até um artigo específico em sua Constituição para fomentar a vinda de imigrantes do Velho Continente.
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O Artigo 25 da Constituição argentina diz:
“O Governo Federal fomentará a imigração europeia; e não poderá restringir, limitar nem impor qualquer imposto sobre a entrada no território argentino de estrangeiros que tenham como objetivo cultivar a terra, desenvolver as indústrias e introduzir e ensinar as ciências e as artes”.
O texto é de 1853 e foi escrito no contexto de uma nação que tinha conquistado sua independência da Espanha há menos de 40 anos. O trecho, porém, ainda aparece na versão atualizada da Constituição.
A permanência desse artigo no texto constitucional é ultrapassada, afirmou ao g1 o comentarista da GloboNews Ariel Palacios.
“Esse artigo é totalmente anacrônico, deveria ser removido, porque na prática o governo não estimula essa imigração e nunca fez campanhas públicas para trazer europeus, até porque eles [europeus] estão muito mais confortáveis atualmente na União Europeia”, afirmou Palacios.
Uma outra legislação sobre o tema, a Lei de Migrações de 2003, afirma que a imigração deve ocorrer sob os princípios da “igualdade e universalidade” e não distingue o continente de origem.
A virada étnica
Herança da colonização espanhola, esse artigo específico é um indicativo de como a Argentina atual foi construída e como sua sociedade passou de uma maioria indígena para uma maioria branca.
Segundo Palacios, as cidades argentinas eram compostas no início por uma minoria de colonizadores espanhóis e o restante de indígenas. Além disso, mais de 200 mil africanos escravizados também foram levados ao território entre o século XVI e início do século XIX.
A Espanha então incentivou a vinda de seus cidadãos para a colônia, política se manteve depois que a Argentina se tornou independente, em 1816, com uma grande onda de europeus chegando ao país em meados do século XIX e no século XX.
Cerca de 7 milhões de imigrantes, principalmente da Espanha e da Itália, chegaram entre 1850 e 1950. Uma outra onda de imigrantes do leste europeu rumou à Argentina após a queda da União Soviética, segundo Palacios.
Em paralelo, as parcelas da população negra e de povos originários foram diminuindo ao longo dos séculos, como consequência de alguns fatores:
genocídios derivados da expansão territorial
guerras civis – com recrutamento desproporcional de negros
uma epidemia devastadora de febre amarela, em 1871, que atingiu bairros pobres com mais força.
”A população de afro-argentinos foi morta nas guerras da independência e nas guerras civis, que duraram décadas. Eles sempre eram colocados na linha de frente. Foi devastador”, afirmou Palácios. Já os povos originários foram vítimas de massacres e genocídios, explicou.
Esses dois movimentos – a chegada de imigrantes europeus e a queda da população originária – contribuíram para uma virada demográfica na Argentina.
👉 Segundo um censo realizado em 2022, a parcela de descendente dos povos originários encolheu para apenas 2,9%. A população negra é ainda menor, de 0,7% do total de 46,2 milhões de habitantes contabilizados naquele ano.
Apesar disso, Palacios afirma que a população argentina tem um certo grau de miscigenação para além do que as estatísticas mostram, porque o costume na época da colonização era dos espanhóis se casarem com as mulheres indígenas. Palacios ressalta ainda que a cultura dos povos originários tem grande influência nos ritmos mais populares da Argentina – como o tango.
O tango vem da milonga, que tem origem na música africana, explica o advogado e ativista argentino Alí Delgado, em entrevista à Deutsche Welle. Segundo ele, a Argentina sofreu um apagamento racial deliberado ao longo dos séculos.
“A Argentina acha que não é racista porque a Argentina acha que não existem pessoas negras no país […] Dizem que é o país mais branco da América do Sul, a Paris das Américas, da América Latina. A Argentina não é branca. Se fosse, eu não estaria aqui”, afirmou Delgado à DW.
“Somos negros, somos argentinos, e a Argentina também é negra”, concluiu o ativista (veja a entrevista completa de Delgado no vídeo abaixo).
Como a Argentina fomentou por séculos o mito de um país branco e europeu





