Análise: Trump não tem opção melhor do que negociar com o Irã


Donald Trump
EPA via BBC
As mais recentes declarações de Donald Trump sobre o Irã e as chances de haver um acordo devem ser levadas a sério, já que ele é, afinal de contas, o presidente dos Estados Unidos.
Trump disse na cúpula da aliança militar na Turquia: “Não quero mais lidar com eles, são escória. Sabe o que é escória? Eles são escória. São pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes. E são pessoas cruéis e violentas.”
“E se eles tivessem uma arma nuclear, eles a usariam. No que me diz respeito, acabou [o cessar-fogo].”
Mas seriam essas as suas últimas palavras sobre o assunto? Certamente não.
Trump tem seguidamente falado sobre a guerra e o memorando de entendimento (MOU) que está sendo negociado. Suas palavras têm oscilado entre declarações de vitória, ameaças de aniquilação da civilização iraniana e apoio às negociações.
Mais tarde, ele reiterou suas últimas ameaças, dizendo que os EUA “provavelmente os atacarão com mais força novamente esta noite”.
A capacidade dos EUA de atingir o Irã, causando grandes danos, não está em dúvida. Mas o que eles não conseguiram fazer foi quebrar a vontade do regime de abandonar qualquer uma de suas exigências fundamentais, a começar pelo controle da navegação pelo Estreito de Ormuz.
Em meio ao seu mais recente ataque verbal, estava implícita a aceitação de que as negociações continuariam. Elas estiveram suspensas enquanto o Irã realizava os velórios de seu ex-líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, assassinado por Israel e pelos EUA no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro.
Trump foi questionado se a troca de ataques entre os EUA e o Irã – e, por extensão, alguns dos aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo – significava o fim das negociações entre eles.
Referindo-se aos seus principais negociadores, Steve Witkoff e Jared Kushner, ele disse: “Não me importo, eles podem negociar. Mas acho que estejam perdendo tempo.”
Sobre o regime iraniano, Trump disse: “Eles são um bando de mentirosos.”
Isso pode ser interpretado como mais uma admissão de que o presidente dos EUA, apesar de suas bravatas, não tem alternativa melhor do que negociar com o Irã. Com Israel, os EUA tentaram, sem sucesso, destruir o regime iraniano.
Mas o processo de negociação é frágil. Uma fonte entre os mediadores que tentam fazer com que as negociações funcionem disse que o fato mais recente é “um revés, sem dúvida”. O clima é considerado “muito tenso”.
Essa é uma forma diplomática de dizer que os eventos dos últimos dias representam um cenário terrível para negociações entre duas potências que não têm nenhuma confiança de que a outra cumprirá sua palavra caso um acordo seja firmado.
No cerne das recentes trocas de ações militares entre o Irã e os EUA está a determinação do regime de Teerã em manter o controle do Estreito de Ormuz. A capacidade de impedir a passagem de navios que transportam itens essenciais, incluindo um quinto do fornecimento mundial de petróleo e gás, confere-lhe um forte poder de influência sobre a economia global.
É uma ferramenta de pressão muito mais eficaz do que a simples possibilidade de desenvolver uma arma nuclear.
O Irã não concordará em abrir mão do controle do Estreito de Ormuz. É por isso que está disposto a arriscar o memorando de entendimento – repleto de potenciais concessões vantajosas para o Irã – para deixar claro que não há volta. Está disposto a apostar em uma guerra contínua para proteger o que considera seus direitos estratégicos no Estreito.
O regime em Teerã se sentiu encorajado pelo fracasso dos EUA e de Israel em destruí-lo. O funeral do líder supremo demonstrou que o regime islâmico possui um núcleo de apoio sólido.
A oposição interna não desapareceu. Mas o uso implacável da força pelo regime para reprimir protestos, matando milhares de pessoas em janeiro por se manifestarem nas ruas, obrigou-a a manter um perfil discreto.
Se a escalada entre os dois lados puder ser interrompida, os mediadores envolvidos no processo de negociação acreditam ser possível chegar a um acordo com o Irã que permita a passagem de navios pelo Estreito. Tal acordo teria que fazer parte de um pacto mais amplo que desbloqueasse os ativos iranianos mantidos no exterior, permitisse ao Irã vender seu petróleo e, crucialmente para o regime, reconhecesse a autoridade iraniana sobre o Estreito.
Em troca, o Irã teria que aceitar limites ao enriquecimento de urânio, permitir o retorno dos inspetores nucleares da ONU e prestar contas dos estoques do que Trump chama de “poeira nuclear” — em outras palavras, urânio já enriquecido a níveis próximos aos que poderiam ser usados para fabricar uma arma nuclear.
Mas os acontecimentos das últimas 24 horas mostram o quanto isso será difícil.






