

Shakira e o cérebro poliglota
Estoy aqui, Estou aqui, I’m here, Io sono qui, Je suis ici, Soc aquí, أنا هنا, diz o g1, pronto para explicar as mudanças que ocorreram no cérebro da cantora colombiana Shakira, diante do fato de ela dominar tantos idiomas:
espanhol, sua língua materna;
português (impecável);
inglês (com direito a um vocabulário vasto e a participações em programas de TV, como o de Jimmy Fallon);
italiano, em nível avançado, dispensando tradutores;
francês, com um errinho aqui, outro ali, mas total capacidade de se comunicar (é o que importa, afinal de contas);
catalão, aprendido durante o período em que morou em Barcelona (“Boig per Tu” é inteira nesse idioma);
árabe, pela ascendência libanesa, mas com domínio “apenas” de expressões e frases isoladas.
🎶Whenever, wherever, 🎶 ou melhor, não importa quando nem onde, Shakira consegue rapidamente acessar o vocabulário, as estruturas sintáticas e as expressões populares de cada uma dessas línguas.
O cérebro dela, assim como o de todas as pessoas multilíngues, trabalha sob a lógica de “malabarismo mental”, como explica Felipe Barros, médico neurologista do Hospital Sírio Libanês.
“Diferentemente do que se acreditava no passado, os idiomas não ficam armazenados em compartimentos isolados; eles permanecem ativos simultaneamente. Quando uma pessoa fala um idioma, o cérebro precisa recrutar mecanismos de inibição para suprimir as palavras e as regras gramaticais das línguas que não estão sendo usadas”, afirma.
➡️Ou seja: no momento em que a cantora estiver dando uma entrevista em italiano, o sistema nervoso dela fará um esforço contínuo para ignorar os outros idiomas “intrusos”, como o português e o inglês. Todo esse processo mantém as redes neurais em estado de alta atividade e coordenação.
“É um sistema de controle de ‘chaveamento’”, como define Barros.
Conhecido como “code-switching”, em inglês, esse mecanismo cognitivo permite ao bilíngue transitar entre dois ou mais idiomas sem misturá-los de forma caótica.
É como se o cérebro não tivesse gavetas separadas para cada língua, mas sim um grande painel de controle.
A seleção da língua específica ocorre por meio de um controle executivo.
“Esse processo funciona como um semáforo neural: o cérebro sinaliza ‘verde’ para a língua pretendida e ‘vermelho’ para a outra, monitorando constantemente a fala para detectar possíveis interferências ou erros de seleção”, explica o neurologista.
🧠Quais regiões são acionadas neste processo?
Shakira em performance no Grammy, a premiação mais importante da música, em Los Angeles, em 2025
Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy
Como Shakira não fica “Loca, loca, loca” ao saber tantos idiomas?
O sistema nervoso dela (e dos bilíngues) é uma estação de rádio ao vivo. Enquanto as áreas neurais da linguagem cuidam do conteúdo, as de controle supervisionam a mesa de som para garantir que as frequências não se cruzem:
Área de Broca e Wernicke: Produção e compreensão dos sons e da gramática. Elas criam e codificam as palavras.
Córtex Pré-Frontal Dorsolateral: Gerenciamento da memória de trabalho e alternância entre as tarefas linguísticas. Ele escolhe qual língua usar no momento.
Córtex Cingulado Anterior: Monitoramento do conflito entre os idiomas. Dá sempre uma mãozinha na detecção de erros.
Núcleos da Base: Troca de um idioma para outro. É o “botão biológico”.
💪Musculação cerebral
Essa ginástica neural de “ligar e desligar” línguas diferentes transforma o cérebro em uma espécie de academia de alta performance. De acordo com Barros, as neuroimagens revelam que o uso frequente de vários idiomas promove a chamada neuroplasticidade.
“Observamos um aumento na densidade da substância cinzenta, onde ficam os neurônios. Além disso, há uma melhoria na integridade da substância branca, as fibras de conexão, o que torna a comunicação entre diferentes partes do cérebro mais rápida e eficiente”, explica o médico do Hospital Sírio-Libanês.
O cérebro de quem é poliglota, portanto, apresenta conexões mais robustas e resistentes.
Os benefícios desse “treino” são percebidos em outras habilidades exigidas no dia a dia:
Flexibilidade cognitiva: Capacidade de mudar de estratégia rapidamente diante de um problema.
Atenção seletiva: Maior facilidade para focar no que é relevante e ignorar distrações.
Memória de trabalho: Processamento de informações complexas com mais agilidade.
Efeito coquetel: Superioridade em filtrar o ruído de fundo e isolar a voz de quem fala em ambientes barulhentos.
📢No ritmo da fluência
Cida Caltabiano, doutora em Linguística Aplicada (Unicamp) e professora da PUC-SP, ressalta que o segredo é a exposição constante aos diferentes idiomas.
Dar play em um hit pode, inclusive, potencializar o processo.
“A música é uma das atividades mais prazerosas . O indivíduo ouve, canta junto, repete várias vezes… vai aperfeiçoando o ouvido e, consequentemente, a fala”, diz a docente.
Segundo Caltabiano, pesquisadores relacionam diretamente o desenvolvimento da percepção dos sons a uma produção vocal de qualidade. “Jovens que têm contato com música ou jogos eletrônicos em inglês, por exemplo, têm muito mais facilidade. A percepção dos sons leva a uma melhor produção”, afirma.
⏰Quanto antes, melhor
Por que algumas pessoas parecem “esponjas” para novos idiomas, enquanto outras travam no verbo “to be”?
Para a professora, o fator ambiental e o contato precoce com outra língua são fatores determinantes.
“Se há uma relação com o idioma desde a infância, a criança aprende que um objeto pode ser nomeado de diferentes maneiras e passa a ver isso com naturalidade, não importa se é a segunda ou a terceira língua dela”, explica.
Felipe Barros complementa que, embora adultos possam atingir a proficiência total, exigirão mais do lobo frontal para gerenciar o novo vocabulário. Quem aprende cedo consegue usar as mesmas redes neurais de forma mais instintiva.
E faz diferença, do ponto da neurologia, saber dois, três ou quatro idiomas?
“O maior salto na reestruturação cerebral ocorre na transição do monolinguismo para o bilinguismo. A partir do terceiro ou quarto idioma, o cérebro se torna um especialista em aprender”, diz o neurologista.
⏳Escudo contra o tempo
“Oh, baby, when you talk like that… ”, em mais de um idioma, os benefícios serão sentidos também a longo prazo.
O exercício constante de gerenciar diferentes línguas funciona como um potente fator de reserva cognitiva: esse hábito pode retardar de quatro a cinco anos o aparecimento de sintomas de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Não é que o cérebro multilíngue impeça a biologia do envelhecimento, mas é capaz de construir “vias alternativas” que permitem ao órgão funcionar melhor por mais tempo.
Mas não esqueça: para obter todo esse sucesso, é preciso manter contato frequente com as diferentes línguas.
Pode começar aí a ensaiar a estrofe mais difícil da música latina:
“Ahogándome entre fotos y cuadernos
Entre cosas y recuerdos
Que no puedo comprender”.
Fonte: g1 > Educação
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