

Meninas relatam mais tristeza, desamparo e insatisfação com o próprio corpo
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada na última quarta-feira (25), revela um cenário alarmante sobre a realidade das adolescentes brasileiras, que representam metade da população escolar (cerca de 6,2 milhões de jovens): as meninas apresentam indicadores de saúde mental, percepção corporal e exposição à violência mais críticos do que os meninos.
🔎 A PeNSE é uma pesquisa escolar realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação e traça um diagnóstico sobre mais de 12,3 milhões de jovens entre 13 e 17 anos das redes pública e privada do Brasil.
Segundo os dados, 41% das meninas relataram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa — índice quase 2,5 vezes maior que o dos meninos (16,7%). A vulnerabilidade emocional também aparece em outros sentimentos negativos:
Ideação de autolesão: 43,4% das meninas relataram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses (entre os meninos, 20,5%).
Desamparo: 33% afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas.
Desesperança: 25% dizem acreditar que a vida não vale a pena ser vivida (entre os meninos, 12%).
Ansiedade e humor: 61,0% relatam preocupação excessiva com o cotidiano, e 58,1% dizem sentir irritabilidade ou mau humor com frequência.
Fatores sociais, culturais e estruturais ajudam a explicar o maior impacto na saúde mental de adolescentes — sobretudo entre meninas. De acordo com Gabriela Mora, do UNICEF no Brasil, questões como violência de gênero, assédio online, pobreza menstrual e padrões estéticos inalcançáveis estão por trás do cenário mostrado pela PeNSE: mais tristeza, maior insatisfação corporal e mais comportamentos de autoagressão entre elas.
Enquanto isso, meninos são socializados em uma lógica de masculinidade que valoriza o controle emocional e restringe a expressão de sentimentos — o que também impacta a saúde mental. Esse contraste, segundo a especialista, ajuda a moldar relações afetivas marcadas por ciúmes, controle e exposição nas redes, com efeitos para ambos os grupos.
Sinais como mudanças de comportamento, isolamento e sofrimento emocional precisam ser levados a sério por famílias e escolas. O acolhimento sem julgamento e a criação de espaços de escuta são fundamentais para evitar o agravamento desses quadros.
“Isso tudo é reflexo de um contexto de desigualdade de gênero e violência. Não se trata de um drama individual de cada menina, mas de uma questão social que ainda precisa ser enfrentada para que meninos e meninas vivenciem a adolescência de forma mais equilibrada e saudável.”
Para Gabriela, a escola tem papel central nesse cenário. Além de espaço de aprendizagem, pode funcionar como ambiente de proteção e de identificação precoce de situações de risco.
Pressão estética e imagem corporal
A satisfação com o próprio corpo é significativamente menor entre meninas. Segundo os dados, 36,1% se declaram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem — o dobro do registrado entre meninos (18,2%).
Enquanto eles tendem a buscar ganho de peso, 31,7% delas tentam emagrecer, e 21,0% se percebem como “gordas ou muito gordas”, muitas vezes com uma percepção distorcida do próprio corpo.
Vulnerabilidade à violência e assédio
Os dados de segurança mostram que meninas são as principais vítimas de diferentes formas de violência, incluindo agressões recorrentes e abusos de natureza sexual:
Bullying e cyberbullying: 30,1% relataram humilhações frequentes por colegas, e 15,2% disseram ter sido vítimas de agressões no ambiente virtual.
Violência sexual: 26,0% afirmaram ter sofrido assédio sexual — como toques ou exposição contra a vontade — e 11,7% disseram ter sido forçadas a ter relações sexuais.
Violência sexual atinge mais de 1 milhão de adolescentes no país, aponta IBGE
Kayan Albertin – Arte/g1
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Outro ponto destacado é a pobreza menstrual. É a primeira vez que a PeNSE traz dados sobre dignidade menstrual, que mostram que 15% das adolescentes deixaram de ir à escola ao menos um dia no último ano por falta de absorventes.
Falta de absorvente leva alunas a faltarem às aulas
Kayan Albertin – Arte/g1
Apesar da existência de políticas públicas para distribuição de absorventes, barreiras burocráticas e logísticas ainda dificultam o acesso, especialmente para meninas em situação de vulnerabilidade.
De acordo com Gabriela Mora, o problema vai além do acesso a produtos. Falta de infraestrutura adequada nas escolas, como banheiros com privacidade e acesso à água, agrava a situação.
Além disso, o tema ainda é cercado por tabus culturais, dificultando o debate e a busca por soluções.
Percentual de estudantes entre 13 e 17 anos que estudavam em escolas que forneciam absorventes, segundo IBGE
Kayan Albertin – Arte/g1
Impactos de longo prazo
Mesmo apresentando melhores índices de conclusão escolar, as meninas ainda enfrentam desafios específicos, como gravidez não planejada, sobrecarga de responsabilidades domésticas e vigilância sobre sua sexualidade.
“Elas ainda tem um papel dentro de casa, na política do cuidado, de muita responsabilidade com seus irmãos menores, com as pessoas idosas da família. Então é muito desigual o que se cobra das meninas, até em relação a essas possibilidades de cuidado”
Gabriela Mora defende que meninas sejam prioridade nas políticas públicas, com garantia de direitos, proteção contra violências e oportunidades de participação social. “Tudo isso mostra o quão urgente é que as políticas públicas de hoje olhem para as meninas como prioridade, reservem orçamento para políticas que impactem o desenvolvimento de meninas e fomentem espaço e liderança delas”, afirma.
Fonte: g1 > Educação
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