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Repertório cultural na redação do Enem: como usar da forma adequada e evitar o uso 'forçado'


Aluno de Teresina tira 980 na redação do Enem mesmo afirmando não gostar de escrever
Arquivo Pessoal
Na reta final de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, saber usar o repertório sociocultural é fundamental para construir uma redação mais consistente. A redação aparece no primeiro dia de provas — que, neste ano, acontece nos dias 8 e 15 de novembro — e exigirá dos participantes um texto dissertativo-argumentativo sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política.
Livros, filmes, músicas, acontecimentos históricos, conceitos filosóficos e fatos científicos são alguns dos recursos que podem enriquecer a discussão. No entanto, mais importante do que escolher uma referência popular é escolher um elemento que se relaciona com o tema e contribui para defender o ponto de vista apresentado no texto.
O uso inadequado desse recurso pode comprometer a avaliação. Desde a edição de 2025, a Cartilha da Redação do Enem chama a atenção para os chamados “repertórios de bolso”, referências decoradas que os candidatos tentam encaixar em diferentes temas, mesmo quando a conexão com a discussão é superficial.
Desde então, a preocupação com uso de elementos desconexos aumentou, e as consequências do uso inadequado do repertório também: textos com referências consideradas superficiais tiveram descontos nas notas e o número de redação nota mil caiu consideravelmente na última edição.
Agora no g1
Para entender como evitar esse problema, o g1 ouviu Daniel Arantes, editor de conteúdo do Sistema de Ensino COC, e David Gonçalves, professor de Redação da Plataforma AZ. Os dois destacam que o repertório precisa estar integrado à argumentação, e não aparecer apenas como uma citação isolada.
O que pode servir de repertório cultural?
Não existe uma lista específica de referências que podem ou não ser usadas na redação. O repertório pode vir de diferentes áreas do conhecimento e manifestações culturais, desde que seja pertinente ao tema proposto.
Entre as possibilidades estão:
📚 Livros e obras literárias: podem apresentar personagens, contextos sociais e conflitos que ajudem a discutir um problema.
🎞️ Filmes e séries: situações retratadas nas produções podem servir de exemplo ou estabelecer uma comparação com a realidade.
💿 Músicas e álbuns musicais: letras e conceitos abordados pelos artistas podem contribuir para a análise de questões sociais e culturais.
🗺️ Acontecimentos históricos e leis: ajudam a contextualizar a origem de um problema, mudanças sociais ou a evolução de direitos.
⚖️ Conceitos filosóficos e sociológicos: podem oferecer ferramentas para interpretar a realidade e sustentar uma ideia.
🧪 Fatos científicos, dados e pesquisas: podem fundamentar argumentos, desde que sejam compreendidos e usados corretamente.
Redações que receberam nota mil no Enem 2025 mostram essa diversidade. Ao discutir as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira, candidatos recorreram ao livro O Karaíba, do escritor indígena Daniel Munduruku; ao filme Vitória, protagonizado por Fernanda Montenegro; e à Lei dos Sexagenários, de 1885. As referências foram usadas para abordar diferentes aspectos do envelhecimento e da posição dos idosos na sociedade.
Os exemplos mostram que não é necessário recorrer apenas a filósofos clássicos ou a citações consideradas sofisticadas. O essencial é saber o que a referência significa e explicar sua contribuição para o raciocínio desenvolvido na redação.
Importância do repertório na redação
O repertório sociocultural é avaliado principalmente na Competência 2 da redação do Enem, que considera a compreensão da proposta, a aplicação de conhecimentos de diferentes áreas para desenvolver o tema e o uso adequado da estrutura dissertativo-argumentativa.
A competência vale até 200 pontos, assim como as outras quatro que compõem a avaliação. Isso significa que o repertório não é um item isolado da correção: ele precisa contribuir para o desenvolvimento do tema e estar articulado à argumentação.
Segundo Daniel Arantes, o repertório sociocultural é uma informação, citação, fato ou produção cultural que vai além do conteúdo apresentado nos textos motivadores da prova e é mobilizado pelo estudante para enriquecer a discussão.
deve estar conectado de modo claro com o tema tratado na redação, integrando-se também de maneira lógica e contextualizada aos argumentos apresentados ao longo do texto dissertativo.
Por isso, não basta demonstrar que conhece uma obra ou um conceito. O candidato precisa mostrar que sabe relacionar esse conhecimento ao problema discutido e usá-lo para sustentar uma ideia.
Como o repertório deve ser usado
O primeiro passo é compreender o tema da proposta e identificar o que precisa ser discutido. Uma referência que parece útil à primeira vista pode não contribuir para a abordagem exigida pelo exame.
Daniel Arantes recomenda uma leitura cuidadosa da proposta, inclusive dos textos motivadores, para que o participante identifique o recorte temático e evite repetir informações que já estão disponíveis no material de apoio.
Depois de escolher a referência, o estudante deve explicar sua relação com o argumento. Em vez de apenas mencionar o título de um filme ou reproduzir uma frase de um filósofo, é importante apresentar o aspecto da obra ou do conceito que ajuda a compreender o problema.
David Gonçalves, professor de Redação da Plataforma AZ, alerta que a conexão precisa ser relevante, e não apenas existir de maneira superficial. Uma referência pode até tratar de um assunto parecido com o tema, mas isso não significa que, sozinha, seja suficiente para sustentar a análise.
Na prática, vale seguir três passos:
Apresente a referência: identifique a obra, o fato histórico, o conceito ou a informação que será utilizado.
Explique o que ela demonstra: contextualize o exemplo e destaque o aspecto que interessa à discussão.
Relacione-a ao argumento: mostre como a referência ajuda a explicar o problema ou sustentar o ponto de vista defendido.
O candidato também precisa conhecer o conteúdo que escolheu. Memorizar uma citação sem compreender seu significado aumenta o risco de empregá-la fora de contexto ou atribuir a um autor uma ideia que ele não defendeu.
Folha de rascunho da Redação do Enem.
Emily Santos/g1
Como o repertório NÃO deve ser usado
Um dos erros mais comuns é citar uma referência apenas para dar a impressão de que o texto tem profundidade. O candidato menciona um livro, uma música ou um pensador, mas não explica a relação entre aquela informação e o argumento apresentado.
David Gonçalves descreve esse problema como uma espécie de justaposição: o estudante coloca uma obra cultural ao lado do que está dizendo, sem estabelecer uma conexão que ajude a desenvolver o raciocínio.
Outro erro é optar por referências amplas demais. Uma frase genérica sobre a sociedade, por exemplo, pode até parecer aplicável a vários assuntos, mas não necessariamente ajuda a explicar as causas, as consequências ou as características específicas do problema proposto.
Também é importante evitar:
Citações sem contextualização: mencionar uma frase famosa sem explicar o que ela significa para o tema.
Referências com ligação superficial: usar uma obra porque ela aborda um assunto semelhante, sem demonstrar como contribui para o argumento.
Informações imprecisas: atribuir frases a autores errados ou apresentar de forma incorreta o conteúdo de uma obra ou acontecimento.
Exemplos que não acrescentam nada: incluir uma referência que poderia ser retirada do texto sem prejudicar a compreensão ou a força do argumento.
Segundo Arantes, um problema recorrente é apresentar uma informação externa aos textos motivadores, mas sem relação clara com o tema ou com a argumentação. Nesses casos, a redação tende a não alcançar as faixas mais altas da Competência 2.
Isso não significa que o candidato precise abandonar referências conhecidas. O problema não está em escolher um filme popular ou citar um filósofo famoso, mas em não conseguir explicar por que aquela referência é relevante para a discussão.
Perigos dos ‘repertórios de bolso’
Os chamados “repertórios de bolso” são referências decoradas previamente e utilizadas de maneira genérica, sem uma conexão efetiva com o tema da redação. A estratégia pode parecer prática, já que o estudante chega à prova com exemplos que acredita serem adaptáveis a diferentes assuntos. Mas o uso automático dessas referências pode enfraquecer o texto.
Na edição de 2025, a Cartilha da Redação divulgada pelo Inep antes da edição daquele ano chamou a atenção para o uso pouco produtivo de repertórios. De acordo com o documento, a referência que aparecesse sem contribuir de fato para o desenvolvimento da discussão poderia implicar na perda de pontos do candidato..
Ao g1, Daniel Arantes resume o risco: o repertório de bolso pode ser retirado da redação “sem causar grandes prejuízos para a compreensão das ideias lançadas no texto”.
O professor também cita como exemplo o uso de frases de Platão ou Hegel sem uma relação clara e contextualizada com o tema. A autoridade de um pensador, por si só, não torna o argumento mais consistente.
David Gonçalves faz um alerta semelhante: referências excessivamente abrangentes podem funcionar como uma forma de evitar a análise crítica. O objetivo da redação não é apenas comprovar que o estudante conhece determinada obra, mas demonstrar sua capacidade de selecionar informações, interpretá-las e construir uma argumentação.
Como saber se o repertório está forçado? Antes de finalizar o texto, o candidato pode fazer três perguntas:
A referência tem uma relação direta com o tema proposto?
Expliquei como ela ajuda a sustentar meu argumento?
Se eu retirar essa referência, perco uma parte importante da explicação?
Se a resposta à última pergunta for “não”, vale avaliar se o repertório está realmente contribuindo para a redação. Em vez de tentar encaixar uma citação memorizada a qualquer custo, pode ser mais produtivo escolher uma informação que conheça bem e que ajude a explicar o problema em discussão.
Os especialistas dizem que não é necessário decorar uma lista extensa de citações. É mais útil revisar referências que já compreende, pensar em quais discussões elas podem contribuir para desenvolver e, principalmente, treinar a explicação da conexão entre o exemplo e o argumento.


Fonte: g1 > Educação

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