Brasil

Análise: por que o governo venezuelano fala cada vez menos em Maduro

Uma palavra desapareceu do vocabulário do governo da Venezuela. O Ministério da Comunicação e Informação deixou de chamar Delcy Rodríguez de “presidenta interina” em suas notas, cargo que ela assumiu em janeiro, e passou a se referir a ela simplesmente como presidenta.

A mudança consolida outro desaparecimento na narrativa oficial, que aponta para a afirmação da líder do Executivo: fala-se cada vez menos de Nicolás Maduro, que está em meio a um processo judicial em Nova York.

Rodríguez completou 180 dias no cargo no início de julho, dias depois dos terremotos catastróficos que já deixaram mais de 5.000 mortos no país, o que acabou afastando a controvérsia sobre o prazo da presidência encarregada previsto na Constituição.

É no campo político e discursivo que Rodríguez vem se fortalecendo no cargo.

Embora Rodríguez ainda se apresente como “presidenta interina” em suas redes sociais e em alguns comunicados da presidência, há duas semanas o Ministério da Comunicação deixou de usar essa denominação.

Seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, também passou a chamá-la de “presidenta” no X, assim como a chancelaria e contas ligadas ao aparato de comunicação chavista, uma mudança que também foi registrada neste mês.

Com a nova denominação, o governo “está comunicando a aceitação, dentro da coalizão dominante, da continuidade dela no cargo”, disse à CNN o cientista político venezuelano John Magdaleno, professor universitário e diretor da consultoria Polity.

“Existe uma compreensão peculiar sobre o que significa legitimidade sociopolítica; é frequente um esforço para anunciá-la. (…) A Venezuela não é um regime democrático, e a legitimação não funciona pelos mesmos procedimentos de uma democracia. Não há uma legitimação popular, mas sim dos fatores de poder”, observou.

O analista acrescentou que “o governo encarregado está decidindo produzir seu próprio posicionamento, o que significa subordinar a exigência pela libertação de Maduro”.

Os pedidos pela libertação do presidente capturado pelos Estados Unidos eram frequentes em janeiro, mas são ouvidos cada vez menos desde o Palácio de Miraflores.

A CNN enviou uma solicitação ao governo da Venezuela sobre a mudança na narrativa oficial, mas até o momento não recebeu resposta.

Para a cientista política Carmen Arteaga, professora da Universidade Simón Bolívar, é significativo que Rodríguez seja chamada de presidenta nas comunicações do governo.

“Em circunstâncias tão sui generis, tudo conta em termos simbólicos. Está claro que a agenda do retorno de Maduro está sendo deixada para trás definitivamente”, disse em entrevista à CNN.

Arteaga comentou que “as circunstâncias não ajudaram muito” o mandatário deposto, que nesta semana tem uma nova audiência perante a Justiça dos Estados Unidos.

“Não apenas a dinâmica política o afetou; o terremoto foi a lápide para que ele saísse do espaço público. A atenção está concentrada no terremoto e na situação econômica. O cotidiano é tão exigente que Maduro está em quarto ou quinto lugar em termos de importância, se é que ainda tem alguma”, afirmou.

Em modo de sobrevivência

O governo liderado por Rodríguez tem várias frentes urgentes que se agravaram com o terremoto, mas também com disputas internas de longa data.

“Está em uma disputa para conseguir permanecer no poder. O esforço não é nada fácil; há atores estrangeiros e domésticos que defendem, cada um, suas próprias agendas”, disse Arteaga. A pesquisadora lembrou que o chavismo “nunca foi uma unidade monolítica”, mas sim “uma série de facções que se reuniam em torno da liderança carismática de (Hugo) Chávez”. Antes de sua morte, em 2013, ele designou Maduro como sucessor, mas ainda assim houve disputas pelo poder.

“Não foi fácil para Maduro prevalecer. Delcy estava lá, depois foi chanceler e já estava há (quase) uma década como vice-presidente. Sua facção conseguiu sobreviver nesses 13 anos desde que Chávez saiu de cena”, destacou.

Para Magdaleno, “a compreensão de como opera a autocracia passa por entender que existe uma coalizão dominante que possui os recursos estratégicos de poder”.

Entre as esferas que compõem o chavismo, o cientista político afirmou: “Essa coalizão tem um acordo de fundo. Seja tácito ou explícito, nós não saberemos. O acordo ao qual entendo que chegaram é manter-se no poder e tentar administrar as divergências estratégicas mais relevantes dentro do próprio grupo. Não deve haver uma grande dificuldade para que essa trajetória continue”.

Dessa forma, ele traçou um paralelo com os acordos posteriores à morte de Chávez. “Eu não me surpreenderia se for o mesmo padrão: isso também se aplicaria a (Diosdado) Cabello, (Vladimir) Padrino, às Forças Armadas e aos órgãos de segurança. Também significa manter algumas parcelas de poder. Enquanto mantiverem os acordos fundamentais, não se percebe uma ameaça de divisão ou ruptura.”

Arteaga também concordou com isso. “O Rodrigato (como é conhecida a facção chavista liderada por Delcy Rodríguez e seu irmão Jorge) demonstrou que, apesar dos questionamentos pela remoção de Maduro, conseguiu consolidar sua posição e vem desmontando a estrutura do madurismo. Não vejo ameaças no futuro próximo por parte de outras facções.”

Os possíveis acordos entre os líderes do chavismo deixam de fora grande parte da já reduzida base militante. Magdaleno indicou que não há estudos de opinião que mostrem possíveis mudanças no apoio a Rodríguez por parte desse setor, já que as pesquisas se limitam a perguntar sobre os níveis de aprovação geral.

A tutela explícita do Governo dos Estados Unidos toca em uma fibra sensível da narrativa anti-imperialista criada por Chávez e continuada por Maduro. “É uma contradição que vai continuar orbitando em relação às bases mais ideologizadas”, disse Magdaleno.

O analista indicou que os Estados Unidos “delimitaram” as ações em áreas de políticas públicas, “de uma forma que o governo interino parece compelido a tomar decisões em algumas matérias”.

As primeiras foram a reforma da lei de hidrocarbonetos, na mineração e em temas econômicos, embora em outras áreas Washington tenha sido mais permissivo.

“Fica claro que essa foi a prioridade. Mas na dimensão político-institucional, o Governo tem um pouco mais de margem de manobra, parece ter maiores graus de liberdade. Foi possível observar isso com as nomeações do procurador-geral e da titular da Defensoria Pública. Pode estar acontecendo o mesmo com a anunciada reforma judicial”, adiantou.

A margem voltará a ser posta à prova com a mesa de articulação que o chavismo anunciou para dialogar com um setor da oposição “para promover a democracia”, o que abre esperanças nos setores que buscam uma transição eleitoral.

Arteaga disse a esse respeito que “o que o venezuelano comum possa desejar não está na agenda”.

“Infelizmente, o destino depende de diferentes circunstâncias de ordem geopolítica. Podemos esperar um acordo entre elites, o que não seria novidade: permite apresentar uma estrutura que tenha ares de legalidade. Mas quanto à opinião pública em geral, da cidadania e também da militância, o desejo está muito distante da realidade”, acrescentou.

A cientista política acrescentou que o ênfase de Rodríguez está em manter o entendimento com Donald Trump e “dar a segurança de que é a aliada que ele procura”, mas considerou que ainda é cedo para vê-la como algo mais do que uma figura conjuntural.

“É preciso observar como a administração Trump a vê: talvez não seja a atriz política de que necessitam daqui a um ano.” De qualquer forma, ela encontra uma lógica no fato de Rodríguez estar buscando acordos imediatos sem uma visão de longo prazo. “Com urgências como as do terremoto, esse discurso faz algum sentido”, apontou.

Fonte da Matéria: CNN Brasil

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo